50 anos depois de Tom Wolfe

Acabara de passar cinco anos na pós-graduação, coisa que pode não significar nada para gente que não viveu uma experiência dessas e, entretanto, explica tudo. Não sei se sou capaz de dar sequer uma remota idéia do que é um curso de pós-graduação. Ninguém é. Milhões de americanos agora fazem pós-graduação, mas basta pronunciar a palavra – pós-graduação –, e qual é a imagem que vem à mente? Imagem nenhuma, nem ao menos um borrão.
(…)
De qualquer modo, no momento em que recebi meu doutorado em estudos americanos, em 1957, eu me encontrava nas garras tortuosas de uma doença do nosso tempo que leva o sofredor a sentir uma esmagadora necessidade de fazer parte do “mundo real”. Então, comecei a trabalhar para jornais.

[Tom Wolfe :: Radical chique e o novo jornalismo]
 
Ele queria perambular pelas ruas à noite, farejando fatos e pessoas interessantes, dando encontrões com furos jornalísticos e grandes reportagens, escrevendo textos através dos quais se poderia sentir o gosto e o cheiro desse mundo real.
 
Também sinto sede de realidade. Mas uma mesa numa sala com ar-condicionado, um monitor LCD, uma ferramenta de edição e a digestão diária de dezenas de textinhos esquemáticos amontoados em listas de notícias é – tu vê como são as coisas – suficientemente real para os meus padrões.
 
Posted: May 17, 2007 Comments (3)

Quanto à Maria Antonieta…

Saí do cinema pensando "Putz… que azar o dessa guria. Foi ser rainha da França justo quando os caras resolveram revolucionar e acabar com a mordomia do pessoal da corte!". Mmmm. Talvez não seja um pensamento muito crítico da minha parte, mas, bem, o filme também não é. E, de qualquer maneira, achei ele bem divertido. Algumas cenas feitas para serem encantadoras, e muito bem sucedidas nesse propósito.
 
Posted: May 5, 2007 Comments (1)

Ping-pong da ciência

Assisti ao filme Gatacca – exibido como parte de um debate sobre bioética na Livraria Cultura hoje pela manhã – e, em seguida, ao Ping-pong da Mongólia – em estréia no Arteplex, rivalizando com Homem-Aranha 3. Engraçado como meninos mongóis de sete anos de idade –  vivendo sem televisão, passando o dia andando a cavalo, subindo montes, implicando uns com os outros – podem ser ao mesmo tempo tão diferentes e iguais a nós, ocidentais das sociedades tecnológicas. Eu sei que não dá pra reduzir nem pra simplificar desse jeito, mas parece que o traço comum é a capacidade imaginativa: a criação de fantasias, os sonhos, os delírios (não necessariamente num mau sentido), as especulações.
 
De que se trata aquela bolinha? De que se trata a nossa própria natureza? É de ordem divina, é algo que devemos à nossa nação (o que é a nação?)? Onde está a explicação? Nos espíritos dos rios ou televisão ou na capital nacional?
 
A impressão com a qual eu saí do debate é que tudo – nesse caso, o desenvolvimento científico – meio que não passa de um jogo. Às vezes a gente erra, outras acerta, outras faz coisas que nem imaginava serem possíveis. Os rumos são geralmente inusitados. Até porque quem está jogando somos nós, pessoas imperfeitas mas cheias de criatividade e muito aptas à subversão e à reinvenção. E queremos sempre ultrapassar limites, quebrar recordes, vencer desafios – esse gostinho nos faz sempre querer ir mais pra frente, não desejar parar.
 
O que eu achei muito legal – me surpreendeu bastante, de forma bem positiva – é que o tom das pessoas que estavam lá não parecia ser o de tentar controlar os erros ou desvios desse desenvolvimento, nem de tentar pará-lo, mas aceitá-los e pensar sobre eles. Entender um pouco do jogo. E, como as almas bem intencionadas que pareceram ser, encontrar meios de que, nesse percurso, algumas regras sejam reconhecidas e respeitadas para que a “pessoa humana” – especificamente, aquela que não participa das etapas decisórias do processo –  não seja submetida a ainda mais sofrimento, sacrifício, violência e injustiça.
 
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1. A máquina voltou do conserto

Posted: May 3, 2007 Comments (5)