Única explicação possível

Meu celular desapareceu. Uma hora estava comigo. Outra hora, não estava mais. E não há registros de que ele tenha sido visto desde então. Só posso pensar que ele tomou algum caminho errado e, no momento, causa sensação no planeta já há algum tempo estudado pelo jovem pesquisador Veet Voojagig:
 
[…] Em algum lugar no cosmos – afirmou ele –, além de todos os planetas habitados por humanóides, reptilóides, peixóides, arvoróides ambulantes e tons de azul superinteligentes, haveria também um planeta habitado por seres vivos esferografóides. E era para esse planeta que iam todas as esferográficas perdidas e abandonadas, escapulindo por buraquinhos no espaço para um mundo onde elas podiam viver uma vida esferografóide, reagir a estímulos de caráter eminentemente esferografítico – em suma, levar a vida com que sonha toda esferográfica.
[Douglas Adams :: O Guia do Mochileiro das Galáxias]
 
Posted: March 28, 2007 Comments Off

À procura da felicidade

Não posso afirmar, mas desconfio que já houve um tempo em que não se andava por aí tentando ser feliz o tempo todo. Aí provavelmente uma propaganda de carro que afirma levar felicidade aos seus proprietários não faria o menor sentido. Muito menos “A lua, a praia, o mar; ser amado e amar” formariam um jingle consistente de supermercado. Imagino que em tal época nem sequer se falava em auto-estima, quem dirá vendê-la junto com sabonete.
 
Acho que as pessoas então não ficavam perseguindo um sentimento de realização pessoal, nem buscando sentirem-se satisfeitas consigo mesmas. Acho que elas viviam. Faziam o que tinham que fazer, quando isso era o que elas podiam ou queriam fazer. Ou não faziam nada. Não quero dizer que esta seria uma condição melhor que a que temos agora. Nem mais fácil ou mais simples. Apenas acho o nosso um tempo engraçado, quando penso nisso. Mas quando rio, sei que estou rindo de mim também.
 
Seria uma boa ilusão pensar o contrário, mas a verdade é que eu também ando por aí tentando ser feliz. Explorando possibilidades, perseguindo e quebrando promessas, transformando algumas certezas em dúvida e acreditando no que antes parecia nebuloso. Será que é agora que eu estou fazendo a coisa certa? Ou será que era o que eu estava fazendo antes, quando pensava estar errada? Ou será algo diferente disso tudo? Como saber? E pra que serve, no fim das contas, esse monte de tentativas acumuladas, como uma pilha de trailers de filmes que eu sei que nunca verei inteiros?
 
E nessas horas, confesso, se surgisse à margem da estrada um supermercado anunciando respostas certas, com prateleiras repletas de coisas que ele sabe que me fazem feliz, com as quais eu não estaria deixando a vida passar debaixo do nariz, eu entraria sem hesitar.
 
Para o resto do tempo, porém, acho que um bom exercício pode ser aceitar e ir aprendendo a apreciar essas próprias tentativas, perceber que isso é mesmo a vida acontecendo – particularmente, acho que pode haver melhores, mais divertidas e mais interessantes opções do que adquirir um Honda ou comprar na rede Pão de Açúcar. De qualquer maneira, seria como uma resolução de curtir os trailers sem se preocupar tanto com o conteúdo do filme. Afinal, muitas vezes, todos os melhores momentos estão mesmo concentrados ali.
 
Posted: March 27, 2007 Comments Off

Batalha

Nos últimos meses, por muito tempo fui obrigada a permanecer sentada nesta mesma cadeira diante desta mesma mesa tentando levar meu pensamento ao limite e ao mesmo tempo me esforçando para fazê-lo inteligível. Não sei o quanto fui bem sucedida, mas uma coisa é certa: cansa! Por isso, tenho fugido daqui. Dessa cadeira. De teclados e telas e processadores de texto.
 
Tantas outras coisas têm sido muito melhores que isso.
 
Mas chegou a hora de darmos uma trégua. Ninguém precisa ser tão radical assim.
 
Posted: March 26, 2007 Comments Off