Homem-máquina e comerciais da Apple

Philippe Breton é um pensador crítico francês que escreveu um livro chamado À imagem do homem: do Golem às criaturas virtuais, onde vai explorando, através de alguns exemplos ao longo da história, o modo como o homem compreende a si mesmo, ou aquilo que acredita que é sua essência. Ele sustenta que, quando construímos uma determinada imagem/ criatura/ objeto/ narrativa/ conceito e dissemos "aqui está: conseguimos recriar a vida humana", é como se estivéssemos objetificando nossa auto-compreensão. Nas palavras do autor, "as criaturas artificiais são metáforas do humano".
 
Ele faz uma observação interessante, notando que a invenção do computador foi fundamentada na pretensão de se reproduzir o homem naquilo que ele teria de essencial - de acordo com a concepção de seus propositores -, ou seja, a inteligência. Não é que a analogia entre cérebro e computador tenha sido, portanto, posterior à invenção deste.
 
Pois, uma constante nos exemplos apresentados é que os criadores das criaturas invariavelmente enxergam nelas o seu sucesso, ou seja, a conquista do poder de criação da vida. E essa crença se dissemina, contagiando os círculos próximos. Por exemplo, os autômatos do século XVIII encantavam as cortes francesas e ninguém duvidava de que algo de "milagroso" estava se operando quando a "tocadora de xilofane" (foto) entrava em cena.
 
Pra resumir a história: as "tribos informáticas", da mesma forma, acabam realizando um processo de "antropomorfizar" seus computadores, nutrindo uma certa desconfiança de que estes podem ser, sim, muitas vezes, mais "gente" do que muita gente. Ele cita Sherry Turkle em suas pesquisas com o pessoal do MIT: "Quando escutamos os seus criadores, os programas têm intenções, dão o seu melhor, são mais ou menos inteligentes, ou estúpidos, comunicam entre si e perdem o norte".
 
De repente dá pra se pensar como um extremo desse processo - daqueles extremos que acabam sendo uma inversão - o fato de hoje podermos "computamorfizar" pessoas. Claro que, no momento em que eu olho para um computador e enxergo uma criatura viva, reflexivamente eu posso passar a olhar para uma criatura viva e enxergar um computador. Como diz o Breton lá pelas tantas: "Uma sociedade que apresenta criaturas artificiais com a forma de máquinas, apresenta simultaneamente e por intermédio dessa representação uma imagem do homem como máquina".
 
E isso pode não ser mais simplesmente da dimensão da abstração teórica e da interpretação e análise filosófica e acadêmica - e chata, quem sabe - do mundo. Não. Isso é evidente, e torna-se até mesmo divertido, e a gente nem precisa parar pra pensar muito, e nem requer nenhum esforço intelectual de compreensão para a maioria de nós: basta assistirmos aos, na minha opinião, excelentes, comerciais da Apple disponíveis no YouTube agora (Acho que só escrevi todo esse texto na verdade porque não consegui aprender a colocar o vídeo direto aqui no blogue, por sinal, porque era essa a intenção inicial). Um cara super cool é um Mac e outro cara, meio tanso, é um PC. Os dois são ótimos, mas o do PC é especialmente performático. Os anúncios tratam dos vírus e vulnerabilidades de segurança do PC, da possibilidade de se rodar o Windows ou os outros programas da Microsoft no Mac, da facilidade com que se tira o micro da caixa e começa a brincar… E por aí vai. Tem muitos outros. Vejam lá. Divirtam-se. Afinal, é pra isso também que existem as metáforas.
 
Posted: December 13, 2006 Comments Off