Recomeçar

Ainda não sou Mestre. Tenho um blogue. E um Flickr. E um namorado.
Deixei o Doutorado pra depois. Minhas unhas estão compridas. Caí andando de patins.
Tenho visto meus amigos menos do que gostaria. Assisti Tangos & Tragédias.
Falei em público na frente de gente grande. Falei um monte de bobagem.
Li absurdamente. Escrevi. Discuti. Não sei nada.
Quero férias. Tomei remédio. E passe.
2006 foi um ano cheio de coisas horríveis.
No meio delas, alguns dos melhores e dos mais interessantes momentos da minha vida.
Foi tudo diferente do que eu imaginava.
Estou num lugar completamente diferente do que eu esperava estar.
Ai, ai. O inesperado.
Que venha 2007.
 
Fluindo na direção da morte, a vida do homem arrastaria consigo, inevitavelmente, todas as coisas humanas para a ruína e a destruição, se não fosse a faculdade humana de interrompê-las e iniciar algo novo, faculdade inerente à ação como perene advertência de que os homens, embora devam morrer, não nascem para morrer, mas para começar.
[Hannah Arendt :: A Condição Humana]
 
Posted: December 27, 2006 Comments Off

Is mom ok?

Numa rádio meio aleatória no iTunes, hoje já devo ter escutado umas 15 vezes o comercial da Lifeline, uma empresa de atendimento médico de emergência. A proposta é equipar velhinhos com um aparelho que consiste em um botão e que deve ser usado como um colar (ou uma coleira). 24h por dia, sete dias por semana, o velhinho pode ficar tranqüilo sozinho em casa, sabendo que, caso escorregue no tapete ou tenha algum ataque de qualquer coisa, será socorrido. O interessante é que a propaganda é direcionada aos filhos dos velhinhos, que são incitados a comprar o negócio para poderem permanecer com sua consciência em paz, mesmo longe dos pais. Caso aconteça mesmo algum incidente com o portador do Lifeline, a própria empresa telefona e avisa os familiares.
 
É legal que as pessoas idosas possam mesmo viver em seus próprios lares, dignamente, como ressalta o anúncio. Só fico me perguntando o quanto “dignidade”, neste caso, é sinônimo de solidão e abandono – ainda que estes sejam monitorados tecnologicamente. Não duvido que os velhinhos encoleirados com o Lifeline tenham uma vida feliz e segura. Só fico me perguntando o quanto “felicidade”, neste caso, é sinônimo de ilusão de controle total sobre as fatalidades e acidentes da vida.
 
A propaganda dá uma impressão muito forte de uma espécie de “asilo virtual”, onde se pode depositar os idosos aos cuidados de técnicos pagos para isso sem as restrições e chatices que significariam telefonar ou visitar de vez em quando para conversar ou saber como estão as coisas. Não choca, portanto, pela novidade da idéia. Mas pelo alcance. Como se o fascínio da tecnologia em jogo, que permite que o vovô ou a vovó fiquem em casa, desculpassem o descaso. E como se uma vigilância ininterrupta remediasse aquilo que, apesar de fantasiarmos em contrário, sabemos que não pode ser evitado.
 
Posted: December 19, 2006 Comments Off

The “I” and the “eye”

Acho poucas coisas tão divertidas quanto descobrir e testar novidades. Acabei desinstalando o Thunderbird, por sinal. Meu iBook tá muito velhinho, já, pra aguentar tanta coisa. Tem só 10 giga. Preciso manter ali só o necessário pra trabalhar, não dá pra inventar moda. Mas divago. Ia contar mesmo é que agora eu e o Fofo estamos super-equipados com máquinas fotográficas novas. Bem, eu, nem tanto. A minha não tem milhares de recursos, é mais simplinha, já que nunca fui fotógrafa. Passamos o domingo - não todo, né, os intervalos entre umas e outras escritas e leituras - entretidos com as possibilidades do mundo das imagens. Algumas delas tão aqui no Flickr, de onde estou escrevendo este post. Na verdade, eu queria mesmo era testar essa ferramenta de "integração" entre uma coisa e outra. Outra hora tento propor alguma reflexão mais interessante e profunda sobre isso tudo, quem sabe até sobre o fetichismo tecnológico.
 
Atualização: Tive que formatar o post na ferramenta do Blogsome. Não funcionou o layout que eu tentei criar lá no Flickr. Mas uma hora dessas eu acerto.
 
Posted: December 18, 2006 Comments Off

Homem-máquina e comerciais da Apple

Philippe Breton é um pensador crítico francês que escreveu um livro chamado À imagem do homem: do Golem às criaturas virtuais, onde vai explorando, através de alguns exemplos ao longo da história, o modo como o homem compreende a si mesmo, ou aquilo que acredita que é sua essência. Ele sustenta que, quando construímos uma determinada imagem/ criatura/ objeto/ narrativa/ conceito e dissemos "aqui está: conseguimos recriar a vida humana", é como se estivéssemos objetificando nossa auto-compreensão. Nas palavras do autor, "as criaturas artificiais são metáforas do humano".
 
Ele faz uma observação interessante, notando que a invenção do computador foi fundamentada na pretensão de se reproduzir o homem naquilo que ele teria de essencial - de acordo com a concepção de seus propositores -, ou seja, a inteligência. Não é que a analogia entre cérebro e computador tenha sido, portanto, posterior à invenção deste.
 
Pois, uma constante nos exemplos apresentados é que os criadores das criaturas invariavelmente enxergam nelas o seu sucesso, ou seja, a conquista do poder de criação da vida. E essa crença se dissemina, contagiando os círculos próximos. Por exemplo, os autômatos do século XVIII encantavam as cortes francesas e ninguém duvidava de que algo de "milagroso" estava se operando quando a "tocadora de xilofane" (foto) entrava em cena.
 
Pra resumir a história: as "tribos informáticas", da mesma forma, acabam realizando um processo de "antropomorfizar" seus computadores, nutrindo uma certa desconfiança de que estes podem ser, sim, muitas vezes, mais "gente" do que muita gente. Ele cita Sherry Turkle em suas pesquisas com o pessoal do MIT: "Quando escutamos os seus criadores, os programas têm intenções, dão o seu melhor, são mais ou menos inteligentes, ou estúpidos, comunicam entre si e perdem o norte".
 
De repente dá pra se pensar como um extremo desse processo - daqueles extremos que acabam sendo uma inversão - o fato de hoje podermos "computamorfizar" pessoas. Claro que, no momento em que eu olho para um computador e enxergo uma criatura viva, reflexivamente eu posso passar a olhar para uma criatura viva e enxergar um computador. Como diz o Breton lá pelas tantas: "Uma sociedade que apresenta criaturas artificiais com a forma de máquinas, apresenta simultaneamente e por intermédio dessa representação uma imagem do homem como máquina".
 
E isso pode não ser mais simplesmente da dimensão da abstração teórica e da interpretação e análise filosófica e acadêmica - e chata, quem sabe - do mundo. Não. Isso é evidente, e torna-se até mesmo divertido, e a gente nem precisa parar pra pensar muito, e nem requer nenhum esforço intelectual de compreensão para a maioria de nós: basta assistirmos aos, na minha opinião, excelentes, comerciais da Apple disponíveis no YouTube agora (Acho que só escrevi todo esse texto na verdade porque não consegui aprender a colocar o vídeo direto aqui no blogue, por sinal, porque era essa a intenção inicial). Um cara super cool é um Mac e outro cara, meio tanso, é um PC. Os dois são ótimos, mas o do PC é especialmente performático. Os anúncios tratam dos vírus e vulnerabilidades de segurança do PC, da possibilidade de se rodar o Windows ou os outros programas da Microsoft no Mac, da facilidade com que se tira o micro da caixa e começa a brincar… E por aí vai. Tem muitos outros. Vejam lá. Divirtam-se. Afinal, é pra isso também que existem as metáforas.
 
Posted: December 13, 2006 Comments Off

I am here, right here

Passei toda esta semana pensando bastante no Gabriel. Não foram muitos os momentos que passamos juntos, não convivíamos, não éramos tão próximos. Passei toda essa semana tentando entender porque, apesar disso, sempre que o encontrava, me sentia bastante ligada a ele, como se fôssemos, sim, muito amigos. Ontem, na missa, lembrei com carinho do Gabriel, fiz uma oração. Me despedi deste menino de quem gostei imediatamente, na primeira vez que o vi, e que sempre me surpreendia por ser tão novinho e ao mesmo tempo tão admirável.
 
 
E hoje é meu aniversário. E nesta semana ficaremos sabendo se o baby de uma amiga é menino ou menina. Eu acho que é menino. E um ano novo está se aproximando.
 
Esse 2006, os meus 26 anos, foram completamente diferentes do que eu esperava, do que eu planejei, do que eu imaginava. Mas também, de uns tempos pra cá, eu só me surpreendo quando o rumo das coisas encontra a previsão. Tudo que eu não espero é que o esperado se realize. Não faço a menor idéia de como serão meus 27, o que farei ano que vem. Quero umas coisas, não quero outras. Tudo que posso fazer é viver o que vem por aí, seja o que for.
 
 
Quis saber mais sobre o existencialismo, por culpa de uma leitura da dissertação. Coincidentemente, acho que essa seria uma boa filosofia pra eu pensar sobre esse ano que acaba:
 
“O existencialismo, porém, considera o homem como ser finito, ‘lançado no mundo’ e continuamente dilacerado por situações problemáticas ou absurdas. (…)
Assim, a existência é um poder-ser e, portanto, é ‘incerteza, problematicidade, risco, decisão, impulso adiante’.”
[Giovanni Reale :: História da Filosofia]
 
 
Dá o que pensar, tudo isso, hein. E ainda tem o retorno de Saturno se aproximando.
 
Posted: December 11, 2006 Comments Off

Luto

Tristeza profunda com o falecimento do Gabriel.
Como disse o Träsel, ficam as boas lembranças.
 
Posted: December 4, 2006 Comments Off