An empowered and informed member of society
Hoje à tarde fui ao médico. Prevendo o atraso da consulta, levei um livro. Escolhi um pequeno, para não me incomodar carregando. Um que já li, mas que há tempos me sinto tentada a tomar novamente nas mãos para dar uma folheada. Na recepção, uma mãe com uma criança pequena que parece muito educada e carinhosa, além de outra mulher impaciente. Um aparelho de TV ligado em alguma coisa qualquer da Globo. Com um lápis, começo a ler, fazendo anotações nas margens das páginas. Minutos depois, sem sequer me dar conta, estou com os olhos na tela. É uma novela. Creio que há uma cachoeira ao fundo, com Mariana Ximenes conversando com o cara que faz o personagem fotógrafo agora impotente na novela Páginas da Vida. Ele lhe diz que quer ter uma família com ela. Ela responde que não imaginava que ele desejasse esse tipo de coisa, pois parece tão desapegado. Ele fala: “É o sonho de todo homem”. A bobagem, por sorte, me faz perceber que estou vendo televisão, ao invés de ler. Reflito alguns instantes sobre o fato de ter me distraído tão facilmente. Baixo a cabeça e me deparo com esta frase:
Só se pode entender o humanismo antigo se o apreendermos também como uma tomada de partido em um conflito de mídias – isto é, como a resistência do livro contra o anfiteatro e como a oposição da leitura filosófica humanizadora, provedora de paciência e criadora de consciência, contra as sensações e embriaguez desumanizadoras e impacientemente arrebatadoras dos estádios.
[Peter Sloterdijk :: Regras para o parque humano]
[Peter Sloterdijk :: Regras para o parque humano]
