Quase um post
Quase uma notícia - Não desmereço a relevância da confusão dos aeroportos, menos ainda a importância do debate sobre as condições de trabalho dos controladores de vôo, e lamento profundamente o destino das 154 vítimas do acidente com o Boeing da Gol. Sei que o tema é sério. Talvez por isso mesmo tenha me surpreendido ao ler esta manhã, na capa da Zero Hora, a seguinte manchete: “Vôo que saiu da Capital há 40 dias quase bateu”. (Bem, talvez “surpreendido” não seja a palavra, já que tais bizarrices são mesmo prática comum jornalística) Imagino que grande capa de jornal quase tivemos há 39 dias, se um acidente que não ocorreu já ganhou toda essa publicidade tanto tempo depois. Confesso que minha mente imaginativa chegou a pensar num “vôo que saiu da Capital” há 40 dias, mas que ainda estivesse ainda voando até ontem, quando quase teria batido. Um quase acidente de véspera até me pareceria razoável como destaque de capa, mas um quase acidente de mais de um mês atrás? O melhor de tudo é que as fontes da notícia são o Jornal Nacional, o Fantástico e a Revista Época. O quase acidente é algo de tanto destaque que merece capa: ainda bem que alguém avisou a Zero Hora 40 dias depois. [O título interno da notícia é "Tragédia quase se repetiu 16 dias após acidente"]
Quase uma novela – Que as novelas, como diz o prof. Juremir, tenham promovido as maiores revoluções de costumes das últimas décadas no Brasil, não duvido. Divórcio, homossexualismo, e aí por diante, quando vistos como partes das tramas dramáticas, parecem aumentar a atenção sobre esses temas, de certa forma “naturalizando-os”, de certa forma conduzindo a um maior respeito e tolerância, de certa forma… Mas o que eu queria dizer, apesar de não ser uma expert no assunto, é que uma novela normalmente tem uma história, ou várias, com reviravoltas, muitos acontecimentos, personagens que se dão mal, outros que se dão bem, expectativas sobre o desfecho e, no meio disso, se enfia um assunto de relevância social. Agora, alguém sabe me dizer qual é a dessa novela das oito, Páginas da Vida? Não consigo assistir diariamente, mas a minha impressão é que os personagens ali são meras desculpas para se transmitir conteúdos educativos no horário nobre. Nada acontece naquela novela, e acho que o fato de ela se passar num hospital a maior parte do tempo é só mais uma desculpa pra se ficar ensinando as pessoas a como viver uma vida saudável e decente. Não acreditei quando assisti a uns 10 minutos de conversa sobre a importância da dermatologia para a medicina e como esta área havia sido responsável por descobertas científicas fundamentais. Agora tem uma grávida que passa todo o tempo recebendo orientações sobre gravidez. O alcoólatra visitou umas quantas vezes uma clínica que ensinou a filha que ele, e apenas ele, poderia se ajudar. O casal adolescente, coitados, bulimia, virgindade, análise, pai machista! Sem contar o ícone de tudo, a menina com Síndrome de Down, que atualmente faz a Regina Duarte não falar de outra coisa que não seja a escola aquela, que também deve ter sido cenário de um capítulo inteiro, onde se falou do espírito de cooperação e do respeito à diversidade (ah! sem contar as sessões de orientação com uma médica que deve ser uma fonoaudióloga e que fica ensinando a “Helena” como ela deve proceder para auxiliar no desenvolvimento da menina. e sem mencionar ainda que TODAS as lições são re-pe-ti-das quando a personagem chega em casa e repassa o conteúdo com o pessoal que mora lá com ela). Acho legal que a novela promova debates relevantes, mas particularmente acho que ficar só nisso é um saco.
Quase uma dissertação – ooops. Té mais!
