“Meu problema é minha própria transformação”
Porque o único sentido oculto das cousas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.
Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: -
As cousas não têm significação: têm existência
As cousas são o único sentido oculto das cousas.
[Fernando Pessoa]
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.
As cousas não têm significação: têm existência
As cousas são o único sentido oculto das cousas.
[Fernando Pessoa]
Tenho lido há alguns anos, em momentos aleatórios, trechos escolhidos ao acaso da “Obra Poética”, que ganhei uma vez de aniversário. Não sou nenhuma conhecedora profunda de Fernando Pessoa – muito menos de poesia –, e já faz um tempo que caio sempre no Alberto Caeiro. Impregnada de Michel Maffesoli até a alma neste Mestrado, só posso concluir que o nosso amigo francês dorme abraçado com esses poemas todas as noites. A alegria, a satisfação, o contentamento, o extremo prazer que pode haver em olhar para o mundo, sentir o mundo, aceitar o mundo, viver nele, reconhecer-se como parte dele, tudo isso parece traduzir-se tanto no poeta quanto no sociólogo de que estou falando. Acho que posso comparar com aquele sentimento que aparece de vez em quando, de simplesmente não desejar estar em nenhum outro lugar, em nenhum outro tempo, em nenhuma outra companhia diferente daquela configuração ali daquela hora. Mas que tipo de reflexão, de teoria, poderia surgir de tal estado de aliança com o mundo? Uma que “pensa como quem respira”, pra usar as palavras de Pessoa. E como deve ser asfixiante a sensação de temer, detestar, desprezar, ou querer transformar o ar que se inala. Ou pior: desconfiar dele, procurando constantemente o que estaria acima ou além ou atrás. Pensar como quem respira.
“Ó, mas qual a relevância de se pensar desse jeito? Uma pesquisa, por exemplo, feita nesses termos, seria completamente inútil, porque não mudaria nada na realidade social tão difícil dos dias de hoje, certo? Se não é para descobrir uma coisa nova, que vai melhorar o mundo, ou indicar um caminho para que ele melhore, nem vale a pena estudar, não é mesmo?” Acho, a cada dia mais, com ou sem Maffesoli, tão pretensioso quanto arrogante isso de “querer inventar a máquina de fazer felicidade”. De achar que individualmente temos como saber o que é melhor pros outros como sociedade, quando mal e mal conseguimos cuidar da nossa própria vida.
E aí eu lembro sempre duma entrevista com o Foucault, em que ele diz algo que eu acho genial, apesar de ir um pouco contra o embalo Pessoa/Mafesa do post. Ele diz que, apesar de ver que o saber transforma o mundo, não é nisso que a experiência própria dele o faz acreditar: “tenho o sentimento que o saber não pode nada por nós e que o poder político é capaz de nos destruir. Todo o saber do mundo não pode nada contra isso.” Enfim, não era o cara mais de bem com a vida que já existiu. Mas o ponto, o que me comove e tem mesmo muito a ver com o que eu sinto que é a fonte do meu prazer em estudar, é quando ele acrescenta:
Eu sei que o saber tem poder de nos transformar, que a verdade não é somente uma maneira de decifrar o mundo (talvez mesmo que isso que chamamos de verdade não decifre nada), mas que, se eu conheço a verdade, então eu serei transformado. E talvez salvo. Ou então eu morra, mas creio de todo modo, que seja a mesma coisa para mim.
É por isso, veja, que eu trabalho como um doente e que eu trabalhei como um doente toda minha vida. Eu não cuido de forma alguma do estatuto universitário disso que eu faço, porque meu problema é minha própria transformação. É a razão pela qual, quando as pessoas me dizem: "você pensa isso, há alguns anos, e agora diz outra coisa", eu respondo: "vocês acreditam que eu trabalho tanto, há tantos anos pra dizer a mesma coisa e não ser transformado?" Essa transformação de si pelo seu próprio saber é, creio, algo bem próximo da experiência estética. Para que um pintor trabalha senão para ser transformado por sua pintura?
[Michel Foucault :: Silêncio, sexo e verdade]
É por isso, veja, que eu trabalho como um doente e que eu trabalhei como um doente toda minha vida. Eu não cuido de forma alguma do estatuto universitário disso que eu faço, porque meu problema é minha própria transformação. É a razão pela qual, quando as pessoas me dizem: "você pensa isso, há alguns anos, e agora diz outra coisa", eu respondo: "vocês acreditam que eu trabalho tanto, há tantos anos pra dizer a mesma coisa e não ser transformado?" Essa transformação de si pelo seu próprio saber é, creio, algo bem próximo da experiência estética. Para que um pintor trabalha senão para ser transformado por sua pintura?
[Michel Foucault :: Silêncio, sexo e verdade]
Me transformar já parece uma grande coisa. Querer “mudar o mundo” seria demais. Até porque, mais uma vez recorrendo à poesia:
Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos os que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!
[Fernando Pessoa]
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos os que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!
[Fernando Pessoa]
