Amor líquido - e de brinde nas garrafas de Coca-Cola

You give a little love and it all comes back to you
You’re gonna be remembered for the things that you say and do
La la la la la la la

[Musiquinha do vídeo da Coca-Cola]
 
A se levar em conta a maioria dos pensadores da pós-modernidade (ou qualquer outro nome que se dê a esse tempo e seu próprio entendimento de tempo), a Coca-Cola parece ter captado perfeitamente o espírito da coisa quando fez este comercial. Num mundo de incertezas, numa vida regulada pela instabilidade, é legal pensar que as coisas legais que eu faço serão reconhecidas – e melhor ainda: voltarão em forma de coisas legais feitas pra mim. Não que alguém realmente acredite nisso, ainda assim, associar-se a esse clima pelo tempo que leva tomar uma garrafa de refrigerante caminhando pela cidade não faz mal a ninguém, não é?
 
O produto é o maior símbolo do capitalismo, o comercial foi criado sobre um vídeo-game ultra-violento, com uma musiquinha simplória e muito hippie, e um personagem distribuindo os gestos de bondade mais clichê possíveis. E nada disso, no entanto, me impede de suspirar com um sorriso a cada vez que assisto.
 
Me chama a atenção eles dizerem que o amor oferecido agora acabará voltando, e que seremos lembrados pelo que fizermos e dissermos – quando a gente sabe, ou pelo menos intui, que nossas ações e palavras geralmente têm duração tão longa quanto a vida de uma fofoca: o tempo de dar uma esmola, ou devolver uma bolsa roubada a uma velhinha. Não duvido, claro, que dentro desse tempo próprio e limitado, possamos usufruir da satisfação, do contentamento, ou por outro lado do pânico, de termos noção de que fizemos algo tri massa ou muito ruim. E é isso aí.
 
Mas o fantástico da propaganda está em justamente me dizer que não, não é só isso aí: meus gestos estarão, sim, inscritos na durabilidade. É engraçado que não importa se depois disso eu vou assistir a mais uma parte do capítulo de hoje da novela, ou sair por aí destruindo a cidade. O que eu faço não será esquecido. Permanecerá. Na contramão da efemeridade das ações em si, e diferente também de todas as instituições – família, casamento, trabalho, comunidade – que algum dia costumaram prover alguma segurança mas que hoje se desintegram num sopro, estou eu – com minha garrafa de Coca-Cola – enriquecendo a minha existência e a dos outros pelo meu amor, pela minha ação e pela minha palavra, que eu acredito serem feitos de um material mais resistente que todo o resto. Enquanto tudo mais parece se liquefazer, eu sinto prazer em me iludir pensando que, em alguma dimensão, meus atos são construções estabilizadas, que serão recordadas, que serão até retribuídas. O fato de essa própria sensação, dessa ilusão, não durar mais do que o tempo do comercial é a ironia que, pra mim, dá o toque de genialidade à idéia da propaganda.
 
[Pra esclarecer, eu nunca joguei esse jogo – como provavelmente um montão de outras pessoas que viu ou vai ver a propaganda – mas entendo a choradeira que vi em outros comentários sobre o fato de a Coca-Cola ter subvertido a proposta e transformado uma peça de agressividade e violência em uma mensagem de paz e amor. Isso também é sintomático do nosso tempo. Parece um procedimento análogo ao da RBS naquela campanha dos monstrinhos (em que o diabo, a bruxa, o lobo-mau viravam bonzinhos e cantavam que “o amor é a melhor herança/cuide da criança”), como a Ju já tinha dito na dissertação dela. Mas esse aspecto seria tema de outro post.]
 
Posted: November 1, 2006

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