An empowered and informed member of society

Hoje à tarde fui ao médico. Prevendo o atraso da consulta, levei um livro. Escolhi um pequeno, para não me incomodar carregando. Um que já li, mas que há tempos me sinto tentada a tomar novamente nas mãos para dar uma folheada. Na recepção, uma mãe com uma criança pequena que parece muito educada e carinhosa, além de outra mulher impaciente. Um aparelho de TV ligado em alguma coisa qualquer da Globo. Com um lápis, começo a ler, fazendo anotações nas margens das páginas. Minutos depois, sem sequer me dar conta, estou com os olhos na tela. É uma novela. Creio que há uma cachoeira ao fundo, com Mariana Ximenes conversando com o cara que faz o personagem fotógrafo agora impotente na novela Páginas da Vida. Ele lhe diz que quer ter uma família com ela. Ela responde que não imaginava que ele desejasse esse tipo de coisa, pois parece tão desapegado. Ele fala: “É o sonho de todo homem”. A bobagem, por sorte, me faz perceber que estou vendo televisão, ao invés de ler. Reflito alguns instantes sobre o fato de ter me distraído tão facilmente. Baixo a cabeça e me deparo com esta frase:
 
Só se pode entender o humanismo antigo se o apreendermos também como uma tomada de partido em um conflito de mídias – isto é, como a resistência do livro contra o anfiteatro e como a oposição da leitura filosófica humanizadora, provedora de paciência e criadora de consciência, contra as sensações e embriaguez desumanizadoras e impacientemente arrebatadoras dos estádios.
[Peter Sloterdijk :: Regras para o parque humano]
 
Posted: November 29, 2006 Comments Off

La lalalala la lala

All the modern things
Like cars and such
Have always existed
They’ve just been waiting in a mountain
For the right moment
Listening to the irritating noises
Of dinosaurs and people
Dabbling outside
(…)
 
All the modern things
Have always existed
They’ve just been waiting
To come out
And multiply
And take over
It’s their turn now

[Björk :: The modern things]
 
Posted: November 25, 2006 Comments (0)

Quase um post

Quase uma notícia - Não desmereço a relevância da confusão dos aeroportos, menos ainda a importância do debate sobre as condições de trabalho dos controladores de vôo, e lamento profundamente o destino das 154 vítimas do acidente com o Boeing da Gol. Sei que o tema é sério. Talvez por isso mesmo tenha me surpreendido ao ler esta manhã, na capa da Zero Hora, a seguinte manchete: “Vôo que saiu da Capital há 40 dias quase bateu”. (Bem, talvez “surpreendido” não seja a palavra, já que tais bizarrices são mesmo prática comum jornalística) Imagino que grande capa de jornal quase tivemos há 39 dias, se um acidente que não ocorreu já ganhou toda essa publicidade tanto tempo depois. Confesso que minha mente imaginativa chegou a pensar num “vôo que saiu da Capital” há 40 dias, mas que ainda estivesse ainda voando até ontem, quando quase teria batido. Um quase acidente de véspera até me pareceria razoável como destaque de capa, mas um quase acidente de mais de um mês atrás? O melhor de tudo é que as fontes da notícia são o Jornal Nacional, o Fantástico e a Revista Época. O quase acidente é algo de tanto destaque que merece capa: ainda bem que alguém avisou a Zero Hora 40 dias depois. [O título interno da notícia é "Tragédia quase se repetiu 16 dias após acidente"]
 
Quase uma novela – Que as novelas, como diz o prof. Juremir, tenham promovido as maiores revoluções de costumes das últimas décadas no Brasil, não duvido. Divórcio, homossexualismo, e aí por diante, quando vistos como partes das tramas dramáticas, parecem aumentar a atenção sobre esses temas, de certa forma “naturalizando-os”, de certa forma conduzindo a um maior respeito e tolerância, de certa forma… Mas o que eu queria dizer, apesar de não ser uma expert no assunto, é que uma novela normalmente tem uma história, ou várias, com reviravoltas, muitos acontecimentos, personagens que se dão mal, outros que se dão bem, expectativas sobre o desfecho e, no meio disso, se enfia um assunto de relevância social. Agora, alguém sabe me dizer qual é a dessa novela das oito, Páginas da Vida? Não consigo assistir diariamente, mas a minha impressão é que os personagens ali são meras desculpas para se transmitir conteúdos educativos no horário nobre. Nada acontece naquela novela, e acho que o fato de ela se passar num hospital a maior parte do tempo é só mais uma desculpa pra se ficar ensinando as pessoas a como viver uma vida saudável e decente. Não acreditei quando assisti a uns 10 minutos de conversa sobre a importância da dermatologia para a medicina e como esta área havia sido responsável por descobertas científicas fundamentais. Agora tem uma grávida que passa todo o tempo recebendo orientações sobre gravidez. O alcoólatra visitou umas quantas vezes uma clínica que ensinou a filha que ele, e apenas ele, poderia se ajudar. O casal adolescente, coitados, bulimia, virgindade, análise, pai machista! Sem contar o ícone de tudo, a menina com Síndrome de Down, que atualmente faz a Regina Duarte não falar de outra coisa que não seja a escola aquela, que também deve ter sido cenário de um capítulo inteiro, onde se falou do espírito de cooperação e do respeito à diversidade (ah! sem contar as sessões de orientação com uma médica que deve ser uma fonoaudióloga e que fica ensinando a “Helena” como ela deve proceder para auxiliar no desenvolvimento da menina. e sem mencionar ainda que TODAS as lições são re-pe-ti-das quando a personagem chega em casa e repassa o conteúdo com o pessoal que mora lá com ela). Acho legal que a novela promova debates relevantes, mas particularmente acho que ficar só nisso é um saco.
 
Quase uma dissertação – ooops. Té mais!
 
Posted: November 24, 2006 Comments Off

Para iniciar com alegria mais um dia de estudos

"Beware of the man who works hard to learn something, learns it, and finds himself no wiser than before," Bokonon tells us. "He is full of murderous resentment of people who are ignorant without having come by their ignorance the hard way."
[Kurt Vonnnegut :: Cat’s Cradle]
 
Posted: November 22, 2006 Comments Off

“Meu problema é minha própria transformação”

Porque o único sentido oculto das cousas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.
 
Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: -
As cousas não têm significação: têm existência
As cousas são o único sentido oculto das cousas.
[Fernando Pessoa]
 
Tenho lido há alguns anos, em momentos aleatórios, trechos escolhidos ao acaso da “Obra Poética”, que ganhei uma vez de aniversário. Não sou nenhuma conhecedora profunda de Fernando Pessoa – muito menos de poesia –, e já faz um tempo que caio sempre no Alberto Caeiro. Impregnada de Michel Maffesoli até a alma neste Mestrado, só posso concluir que o nosso amigo francês dorme abraçado com esses poemas todas as noites. A alegria, a satisfação, o contentamento, o extremo prazer que pode haver em olhar para o mundo, sentir o mundo, aceitar o mundo, viver nele, reconhecer-se como parte dele, tudo isso parece traduzir-se tanto no poeta quanto no sociólogo de que estou falando. Acho que posso comparar com aquele sentimento que aparece de vez em quando, de simplesmente não desejar estar em nenhum outro lugar, em nenhum outro tempo, em nenhuma outra companhia diferente daquela configuração ali daquela hora. Mas que tipo de reflexão, de teoria, poderia surgir de tal estado de aliança com o mundo? Uma que “pensa como quem respira”, pra usar as palavras de Pessoa. E como deve ser asfixiante a sensação de temer, detestar, desprezar, ou querer transformar o ar que se inala. Ou pior: desconfiar dele, procurando constantemente o que estaria acima ou além ou atrás. Pensar como quem respira.
 
“Ó, mas qual a relevância de se pensar desse jeito? Uma pesquisa, por exemplo, feita nesses termos, seria completamente inútil, porque não mudaria nada na realidade social tão difícil dos dias de hoje, certo? Se não é para descobrir uma coisa nova, que vai melhorar o mundo, ou indicar um caminho para que ele melhore, nem vale a pena estudar, não é mesmo?” Acho, a cada dia mais, com ou sem Maffesoli, tão pretensioso quanto arrogante isso de “querer inventar a máquina de fazer felicidade”. De achar que individualmente temos como saber o que é melhor pros outros como sociedade, quando mal e mal conseguimos cuidar da nossa própria vida.
 
E aí eu lembro sempre duma entrevista com o Foucault, em que ele diz algo que eu acho genial, apesar de ir um pouco contra o embalo Pessoa/Mafesa do post. Ele diz que, apesar de ver que o saber transforma o mundo, não é nisso que a experiência própria dele o faz acreditar: “tenho o sentimento que o saber não pode nada por nós e que o poder político é capaz de nos destruir. Todo o saber do mundo não pode nada contra isso.” Enfim, não era o cara mais de bem com a vida que já existiu. Mas o ponto, o que me comove e tem mesmo muito a ver com o que eu sinto que é a fonte do meu prazer em estudar, é quando ele acrescenta:
 
Eu sei que o saber tem poder de nos transformar, que a verdade não é somente uma maneira de decifrar o mundo (talvez mesmo que isso que chamamos de verdade não decifre nada), mas que, se eu conheço a verdade, então eu serei transformado. E talvez salvo. Ou então eu morra, mas creio de todo modo, que seja a mesma coisa para mim.
É por isso, veja, que eu trabalho como um doente e que eu trabalhei como um doente toda minha vida. Eu não cuido de forma alguma do estatuto universitário disso que eu faço, porque meu problema é minha própria transformação. É a razão pela qual, quando as pessoas me dizem: "você pensa isso, há alguns anos, e agora diz outra coisa", eu respondo: "vocês acreditam que eu trabalho tanto, há tantos anos pra dizer a mesma coisa e não ser transformado?" Essa transformação de si pelo seu próprio saber é, creio, algo bem próximo da experiência estética. Para que um pintor trabalha senão para ser transformado por sua pintura?
[Michel Foucault :: Silêncio, sexo e verdade]
 
Me transformar já parece uma grande coisa. Querer “mudar o mundo” seria demais. Até porque, mais uma vez recorrendo à poesia:
 
Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as cousas humanas postas desta maneira.
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seria melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as cousas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as cousas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos os que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!
[Fernando Pessoa]
 
Posted: November 20, 2006 Comments Off

Um convite

Posted: November 13, 2006 Comments Off

Para dar um oi

“… diante da derelição da finitude há coisa melhor a fazer do que apostar a vida em idéias, seja qual for a solidez conceitual”
[Michel Maffesoli :: O Mistério da Conjunção]
 
A gente pode, por exemplo, escrever dissertação, entregar trabalho atrasado, cair andando de patins novos indomáveis, dar livros de presentes pras crianças, comprar limão siciliano, contar segredo e rir das bobagens do passado, comer acarajé, dormir de tarde, ver amigos. E escrever dissertação, já mencionei? Pois é.
 
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Amor líquido - e de brinde nas garrafas de Coca-Cola

You give a little love and it all comes back to you
You’re gonna be remembered for the things that you say and do
La la la la la la la

[Musiquinha do vídeo da Coca-Cola]
 
A se levar em conta a maioria dos pensadores da pós-modernidade (ou qualquer outro nome que se dê a esse tempo e seu próprio entendimento de tempo), a Coca-Cola parece ter captado perfeitamente o espírito da coisa quando fez este comercial. Num mundo de incertezas, numa vida regulada pela instabilidade, é legal pensar que as coisas legais que eu faço serão reconhecidas – e melhor ainda: voltarão em forma de coisas legais feitas pra mim. Não que alguém realmente acredite nisso, ainda assim, associar-se a esse clima pelo tempo que leva tomar uma garrafa de refrigerante caminhando pela cidade não faz mal a ninguém, não é?
 
O produto é o maior símbolo do capitalismo, o comercial foi criado sobre um vídeo-game ultra-violento, com uma musiquinha simplória e muito hippie, e um personagem distribuindo os gestos de bondade mais clichê possíveis. E nada disso, no entanto, me impede de suspirar com um sorriso a cada vez que assisto.
 
Me chama a atenção eles dizerem que o amor oferecido agora acabará voltando, e que seremos lembrados pelo que fizermos e dissermos – quando a gente sabe, ou pelo menos intui, que nossas ações e palavras geralmente têm duração tão longa quanto a vida de uma fofoca: o tempo de dar uma esmola, ou devolver uma bolsa roubada a uma velhinha. Não duvido, claro, que dentro desse tempo próprio e limitado, possamos usufruir da satisfação, do contentamento, ou por outro lado do pânico, de termos noção de que fizemos algo tri massa ou muito ruim. E é isso aí.
 
Mas o fantástico da propaganda está em justamente me dizer que não, não é só isso aí: meus gestos estarão, sim, inscritos na durabilidade. É engraçado que não importa se depois disso eu vou assistir a mais uma parte do capítulo de hoje da novela, ou sair por aí destruindo a cidade. O que eu faço não será esquecido. Permanecerá. Na contramão da efemeridade das ações em si, e diferente também de todas as instituições – família, casamento, trabalho, comunidade – que algum dia costumaram prover alguma segurança mas que hoje se desintegram num sopro, estou eu – com minha garrafa de Coca-Cola – enriquecendo a minha existência e a dos outros pelo meu amor, pela minha ação e pela minha palavra, que eu acredito serem feitos de um material mais resistente que todo o resto. Enquanto tudo mais parece se liquefazer, eu sinto prazer em me iludir pensando que, em alguma dimensão, meus atos são construções estabilizadas, que serão recordadas, que serão até retribuídas. O fato de essa própria sensação, dessa ilusão, não durar mais do que o tempo do comercial é a ironia que, pra mim, dá o toque de genialidade à idéia da propaganda.
 
[Pra esclarecer, eu nunca joguei esse jogo – como provavelmente um montão de outras pessoas que viu ou vai ver a propaganda – mas entendo a choradeira que vi em outros comentários sobre o fato de a Coca-Cola ter subvertido a proposta e transformado uma peça de agressividade e violência em uma mensagem de paz e amor. Isso também é sintomático do nosso tempo. Parece um procedimento análogo ao da RBS naquela campanha dos monstrinhos (em que o diabo, a bruxa, o lobo-mau viravam bonzinhos e cantavam que “o amor é a melhor herança/cuide da criança”), como a Ju já tinha dito na dissertação dela. Mas esse aspecto seria tema de outro post.]
 
Posted: November 1, 2006 Comments (0)