“Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem respira”
Porque o único sentido oculto das cousas
É elas não terem sentido oculto nenhum.
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.
É elas não terem sentido oculto nenhum.
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.
Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: -
As cousas não têm significação; têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.
[Fernando Pessoa]
As cousas não têm significação; têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.
[Fernando Pessoa]
Os pensamentos e as vontades não chegam a uma conclusão, a uma consumação. Aqueles segundos que precedem um insight, só que prolongados por horas. Como quando se tem certeza de que algo grandioso e importante acontecerá dali a uns instantes, e tudo passa a fazer sentido, tudo vai se fechando, as respostas encontram as perguntas, e a expectativa e a ansiedade se transformam em alívio por finalmente ter-se alcançado o momento conclusivo, que amarra todos os precedentes. Isso, mas sem o momento conclusivo.
No hay momento conclusivo. Nenhum “the end” na tela, marcando indiscutivelmente o fim que dá espaço para um novo começo. A trilha do Angelo Badalamenti nunca pára de tocar. E essa coisa meio sonho, em que lugares, coisas e pessoas transmutam-se em outros lugares, coisas e pessoas, dentro de uma lógica interna e particular; uma sobreposição de imagens, acontecimentos, sensações, que só cessa quando a gente acorda. Acordar é o único jeito de fazer isso parar, é a única possibilidade de resolução. Mas “parar” não tem nada a ver com chegar no tal momento conclusivo, em que tudo se amarraria e faria sentido. Tudo que vem antes do ponto final se liga inevitavelmente ao que vem depois. Não tem como editar em volumes passíveis de serem lidos separadamente.
Esse fluxo tem a ver com a vida. E pode ser que ele próprio seja grandioso e importante, mais ainda que os momentos conclusivos, quando nossos esforços de compreensão são recompensados com um estalo de clareza, a qual logicamente depois se dissipa de novo dentro da correnteza de pensamentos e vontades e sensações e imagens e acontecimentos que se sucedem e se acumulam e se transformam e se sobrepõem. E ele vai passando, independente de quantas e quão satisfatórias são as respostas que se encontra, sem ligar para a pontuação que eu acharia melhor ou pior. Ele é seu sentido oculto.
