“Dans un incendie, entre un Rembrandt et un chat, je sauverais le chat”
Hipoteticamente, imaginei dois mundos. Como se fosse capaz de cirurgicamente separar coisas. Nem supus minha inocência ao pensar ser possível não apenas dividir desse jeito, como fazer uma opção de viver em apenas um. Nem vi minha ingenuidade ao ignorar tudo o mais que há entre e por volta dessa dualidade. Não que agora eu apreenda a realidade muito melhor que antes: pelo menos passo a desconfiar da minha cegueira.
É o tipo de coisa da qual se ouve falar por muito tempo, mas só um instante preciso pode fazer essa coisa realmente ser vista, sentida. E eu havia sido advertida. Mais de uma vez. E eu não havia ignorado os avisos, apenas optara por deixá-los quietos, onde não me atrapalhassem o caminho. Até ser atropelada como fui. E, se não é com a cabeça que se pensa, ao menos vê-la espatifada serve como lente. Muda a pessoa, muda o mundo, o seu mundo, o único em que ela vive.
E foi o choque que me lançou violentamente num universo em que minhas divisões não fazem mais sentido nenhum. Os mapas desenhados com tanto empenho não servem pra nada: nem representam um espaço que eu possa reconhecer, assim como as trilhas não estão mais lá. O primeiro sentimento é o desespero de estar perdida. O que segue não é uma vontade de reconstruir o que vejo seguindo as velhas estruturas – o que pareceria ser mais confortável, mas estranhamente ao mesmo tempo me repele.
Em vez de repartir, fazer parte. Qualquer afirmação seria precipitada agora, claro, no entanto é isso que pareço querer. Esse novo universo. Entrar nele. Deixá-lo tomar conta de mim, mais do que desejar controlá-lo. Se estou falando de deus, da química, do amor, da loucura, da cura, da dor, de apostas, dos fantasmas, das trevas, do medo, da biologia ou da genética, da religião, da arte, da pós-modernidade, de pizza, da vida acadêmica, de responsabilidades, do HD do meu computador, de alguém em particular, da solidão, das estações do ano, de planos, da felicidade, da complexidade, da embalagem de canetinhas, de espíritos benfeitores, dos livros na estante, de sexo, de amizade, de um novo autor, da noite de sexta, do passado, do presente ou do futuro? Pressinto que exatamente um dos problemas tenha estado nessa visão-pecinhas-de-um-quebra-cabeças. Estou falando de descobrir, aos pouquinhos, a vida. Tentar abrir os olhos. Com calma, apreender as dimensões.
[A frase do titulo é do escultor Alberto Giacometti e eu conheci pelo filme "Un homme et une femme”, em que "o homem" a cita, e os dois comentam a beleza do fato de, entre a arte a vida, o artista optar pela vida.]
