So no one told you life was gonna be this way

Às vésperas do meu retorno de Saturno, a impressão que tenho é que toda decisão que eu tomar neste momento definirá o resto da minha vida de maneira profunda e inalterável. O que, acabo de me dar conta, é uma bobagem. Até hoje, já determinei tantas coisas pro meu futuro que foram simplesmente viradas de cabeça pra baixo ao longo do percurso! É hora de cair definitivamente uma ficha: projetos, planos, cronogramas, nada disso jamais sai como pretendemos no início. Sendo assim, é uma ilusão eu tratar as decisões que tenho que tomar agora como tão fundamentais assim. Não que elas não sejam importantes, o fato é que elas não são irreversíveis, definitivas, eternas. A armação que preciso escolher pros meus primeiros óculos?
 
Vou fazer 27 anos e minha vida agora não é nada do que eu imaginava como criança, está longe do que eu desejava na adolescência, passa a quilômetros de distância do que eu planejava há cinco anos! Mais precisamente, estou prestes a optar por um caminho que soaria como um sacrilégio diante dos meus projetos de dois anos atrás. E eu venho me enfrentando, me debatendo, por horas com o olhar perdido e um ar reflexivo, procurando por respostas nas profundidades da minha alma: o que eu quero? o que eu devo fazer? quais minhas motivações parar querer isso, para fazer aquilo? são elas justas, corretas, boas, ou frívolas, bobas, errôneas? Se eu não sou a pessoa que eu imaginava que seria, as razões que me impulsionaram antes ainda valem agora?
 
Até que, depois de uma conversa com uma amiga, o pensamento que me ocorre nesta manhã só pode ser o seguinte: não, as coisas não saíram como eu sempre sonhei; não, as condições da minha vida hoje não são as ideais, mas… e daí?
 
Querer vencer os sonhos e ideais é pedir para sentir-se frustrado. A gente vai sempre sair perdendo pras idealizações. A verdade é que eu mesma nunca estarei à altura dos meus próprios parâmetros. O que pode soar meio deprê, mas pensando bem é a essência da vontade de crescer, da vontade que eu tenho de aprender, da abertura que eu posso dar àquilo que me transforma e mexe comigo. Um nível saudável de insatisfação me parece fundamental tanto para não se deixar cair numa estagnação apática e imóvel, quanto para não se deixar tomar por uma arrogância diante da vida (como quando se acredita ser possível dominá-la e controlá-la completamente).
 
E o perigo em que eu me coloco – mas percebê-lo ao menos me permite enfrentá-lo com um pouquinho menos de inocência, eu suponho – quando eu penso nesse meu retorno de Saturno iminente, quando eu penso nessas decisões que agora me parecem tão grandiosas, é exatamente o de eu ignorar o momento que estou vivendo hoje, esquecer o quanto eu já conquistei até aqui, as transformações por que passei nos últimos anos e que ainda estão em curso agora. O perigo é eu deixar de viver isso tudo, que é a minha vida, abrindo mão dela em nome do mundo sedutor da elaboração de planos para o futuro, da ponderação sobre isto ou aquilo que será melhor ou pior pra mim em 2007, enquanto 2006 ainda nem acabou, enquanto eu sei – em algum lugar de mim, eu sei que sei – que projetos e decisões não são tão importantes quanto aquilo que a gente consegue fazer a partir deles.
 
Ou seja, o negócio é relaxar e aproveitar o final de semana, que tem previsão de sol.
 
Posted: September 29, 2006 Comments Off

“Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem respira”

Porque o único sentido oculto das cousas
É elas não terem sentido oculto nenhum.
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as cousas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.
 
Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: -
As cousas não têm significação; têm existência.
As cousas são o único sentido oculto das cousas.

[Fernando Pessoa]
 
Os pensamentos e as vontades não chegam a uma conclusão, a uma consumação. Aqueles segundos que precedem um insight, só que prolongados por horas. Como quando se tem certeza de que algo grandioso e importante acontecerá dali a uns instantes, e tudo passa a fazer sentido, tudo vai se fechando, as respostas encontram as perguntas, e a expectativa e a ansiedade se transformam em alívio por finalmente ter-se alcançado o momento conclusivo, que amarra todos os precedentes. Isso, mas sem o momento conclusivo.
 
No hay momento conclusivo. Nenhum “the end” na tela, marcando indiscutivelmente o fim que dá espaço para um novo começo. A trilha do Angelo Badalamenti nunca pára de tocar. E essa coisa meio sonho, em que lugares, coisas e pessoas transmutam-se em outros lugares, coisas e pessoas, dentro de uma lógica interna e particular; uma sobreposição de imagens, acontecimentos, sensações, que só cessa quando a gente acorda. Acordar é o único jeito de fazer isso parar, é a única possibilidade de resolução. Mas “parar” não tem nada a ver com chegar no tal momento conclusivo, em que tudo se amarraria e faria sentido. Tudo que vem antes do ponto final se liga inevitavelmente ao que vem depois. Não tem como editar em volumes passíveis de serem lidos separadamente.
 
Esse fluxo tem a ver com a vida. E pode ser que ele próprio seja grandioso e importante, mais ainda que os momentos conclusivos, quando nossos esforços de compreensão são recompensados com um estalo de clareza, a qual logicamente depois se dissipa de novo dentro da correnteza de pensamentos e vontades e sensações e imagens e acontecimentos que se sucedem e se acumulam e se transformam e se sobrepõem. E ele vai passando, independente de quantas e quão satisfatórias são as respostas que se encontra, sem ligar para a pontuação que eu acharia melhor ou pior. Ele é seu sentido oculto.

 

Posted: September 26, 2006 Comments Off

Quarenta e dois

Existe uma teoria que diz que, se um dia alguém descobrir exatamente para que serve o Universo e por que ele está aqui, ele desaparecerá instantaneamente e será substituído por algo ainda mais estranho e inexplicável.
 ***
Existe uma segunda teoria que diz que isso já aconteceu.
[Douglas Adams :: O restaurante no fim do universo]
 
 
Posted: September 22, 2006 Comments Off

Mostremos valor, constância

Aí vem o Batalhão das Letras
E, na frente, a comandá-lo,
O A de pernas abertas,
Montado no seu cavalo.
(…)
Com F se escreve Fuga,
Frades, Flores e Formigas
E as crianças malcriadas
Com F é que fazem figas.
(…)
Esse Q das queijadinhas,
Dos bons quitutes de quiabo
Era um O tão mentiroso
Que um dia criou rabo!
(…)
Com X se escreve Xícara,
Com X se escreve Xixi.
Não faças xixi na xícara…
O que irão dizer de ti?!
[Mario Quintana :: O Batalhão das Letras]
 

Homenagem ao 20 de Setembro. Num estilo meio Zaffari-Bourbon, relembro uma obra deste poeta gaúcho, da qual eu gostava muito lá pelos cinco, seis anos de idade.

Posted: September 20, 2006 Comments Off

Hey, pretty girl, time to wake up

Cowboy: A man’s attitude… a man’s attitude goes some ways. The way his life will be. Is that somethin’ you agree with?
Adam Kesher: Sure.
Cowboy: Now… did you answer cause you thought that’s what I wanted to hear, or did you think about what I said and answer cause you truly believe that to be right?
Adam Kesher: I agree with what you said, truthfully.
Cowboy: What’d I say?
Adam Kesher: Uh… that a man’s attitude determines, to a large extent, how his life will be.
Cowboy: So since you agree, you must be someone who does not care about the good life.
[Mulholland Dr.]
 
Hoje eu até queria dizer um monte de coisas. Mas vou deixar falarem por mim. Je suis fatiguée. Time to wake up. Vou dormir.
 
 
Posted: September 18, 2006 Comments Off

Darkness

Black, you are my enemy
And I cannot get close to thee
Our life is ruled by enmity
And I can’t weaken that
The only way that I can see
Is to hold you close to me
To love you for it’s meant to be
I weaken your attack

[Bonnie Prince Billy :: Black]
 
Agora que eu vi! Pra certas coisas, sempre chego um pouquinho atrasada. Mas uma hora, mais cedo ou mais tarde, acaba batendo.
 
 
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“Dans un incendie, entre un Rembrandt et un chat, je sauverais le chat”

Hipoteticamente, imaginei dois mundos. Como se fosse capaz de cirurgicamente separar coisas. Nem supus minha inocência ao pensar ser possível não apenas dividir desse jeito, como fazer uma opção de viver em apenas um. Nem vi minha ingenuidade ao ignorar tudo o mais que há entre e por volta dessa dualidade. Não que agora eu apreenda a realidade muito melhor que antes: pelo menos passo a desconfiar da minha cegueira.
 
É o tipo de coisa da qual se ouve falar por muito tempo, mas só um instante preciso pode fazer essa coisa realmente ser vista, sentida. E eu havia sido advertida. Mais de uma vez. E eu não havia ignorado os avisos, apenas optara por deixá-los quietos, onde não me atrapalhassem o caminho. Até ser atropelada como fui. E, se não é com a cabeça que se pensa, ao menos vê-la espatifada serve como lente. Muda a pessoa, muda o mundo, o seu mundo, o único em que ela vive.
 
E foi o choque que me lançou violentamente num universo em que minhas divisões não fazem mais sentido nenhum. Os mapas desenhados com tanto empenho não servem pra nada: nem representam um espaço que eu possa reconhecer, assim como as trilhas não estão mais lá. O primeiro sentimento é o desespero de estar perdida. O que segue não é uma vontade de reconstruir o que vejo seguindo as velhas estruturas – o que pareceria ser mais confortável, mas estranhamente ao mesmo tempo me repele.
 
Em vez de repartir, fazer parte. Qualquer afirmação seria precipitada agora, claro, no entanto é isso que pareço querer. Esse novo universo. Entrar nele. Deixá-lo tomar conta de mim, mais do que desejar controlá-lo. Se estou falando de deus, da química, do amor, da loucura, da cura, da dor, de apostas, dos fantasmas, das trevas, do medo, da biologia ou da genética, da religião, da arte, da pós-modernidade, de pizza, da vida acadêmica, de responsabilidades, do HD do meu computador, de alguém em particular, da solidão, das estações do ano, de planos, da felicidade, da complexidade, da embalagem de canetinhas, de espíritos benfeitores, dos livros na estante, de sexo, de amizade, de um novo autor, da noite de sexta, do passado, do presente ou do futuro? Pressinto que exatamente um dos problemas tenha estado nessa visão-pecinhas-de-um-quebra-cabeças. Estou falando de descobrir, aos pouquinhos, a vida. Tentar abrir os olhos. Com calma, apreender as dimensões.
 
[A frase do titulo é do escultor Alberto Giacometti e eu conheci pelo filme "Un homme et une femme”, em que "o homem" a cita, e os dois comentam a beleza do fato de, entre a arte a vida, o artista optar pela vida.]
 
 
Posted: September 17, 2006 Comments Off

Tu seras pour moi unique au monde. Je serai pour toi unique au monde…

Qu’est-ce que signifie « apprivoiser » ? (…) « Ma vie est monotone. (…) Si tu m’apprivoises, ma vie sera comme ensoleillée. Je connaîtrai un bruit de pas qui sera différent de tous les autres. Les autres pas me font rentrer sous terre. Le tien m’appellera hors du terrier, comme une musique. Et puis regarde ! Tu vois, là-bas, les champs de blé ? Je ne mange pas de pain. Le blé pour moi est inutile. Les champs de blé ne me rappellent rien. Et ça, c’est triste ! Mais tu as des cheveux couleur d’or. Alors ce sera merveilleux quand tu m’auras apprivoisé ! Le blé, qui est doré, me fera souvenir de toi. Et j’aimerais le bruit du vent dans le blé…»
[Antoine de Saint-Exupéry :: Le Petit Prince]
 
Quem sabe eu não sigo a carreira de miss?
Em todo o caso, aproveito pra estudar um pouco de francês.
E, ok, ok, confesso. Ser um pouco mulherzinha e docinha e dizer, pras pessoas que me são únicas no mundo, que elas me são únicas no mundo. Vocês são.

 

Posted: September 13, 2006 Comments Off

Ah c’mon, you know I can’t fly

And hey there, Mrs. lovely moon, you’re lonely and you’re blue
It’s kind of strange, the way you change
But then again, we all do too

[Devendra Banhardt :: Little Yellow Spider]
  
Eu ia escrever alguma coisa sobre alguma coisa, mas me deu sono. E sono é algo a ser respeitado. Só sei que tinha a ver com fazer um monte de coisas, falar com um monte de gente, em uma tarde, depois de semanas meio isolada. É cansativo. Dá ansiedade. E alivia. E, sei lá. Eu me dou conta de algumas dimensões de coisas: de como faço algumas me parecerem beeem maiores do que são na verdade, e o contrário também. Eu me iludo. E me acho tri esperta. Não agora, agora eu me acho meio tansa, pra ser sincera. Enfim. Eu me irrito. E fico tri feliz. Eu cuido. E não sei cuidar nem de mim. E eu já acho de novo que tá tudo ótimo, só porque tenho autorização pra dirigir. E toca uma música no rádio por coincidência, e soa como uma mensagem, mas no meu celular só diz “bateria fraca”. Eu tenho que ver as coisas de maneira objetiva. Re-fle-tir. Simples assim. E verbalizar meus sentimentos, não de forma histérica e desencontrada, mas centrada e moderadamente. Não o que fiz aqui agora, por certo. Porque hoje parece que passei pelos sete mundos e nem sei como nem porquê. Oh-oh. Matei saudades. Amei o que consegui fazer, o que vi, o que disse, o que me disseram – e também me bateu uma baixa, uma hora. E daí fico alegrinha porque alguém apareceu quando eu apareci, sendo que eu só apareci pra ver se alguém apareceria, e alguém apareceu só porque eu apareci. Mas sei lá. Tô chata. Ei, será que voltei definitivamente ao normal?

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Tomar um sorvete na lanchonete, andar com gente, me ver de perto

Eu preciso ler os livros que eu comprei, e escrever uma dissertação, e artigos, e colocar trabalhos em dia. Eu preciso pensar em 2007. Eu preciso pensar nas minhas motivações. E avaliar quanto é vaidade, quanto é necessidade, quanto é vontade. Ver o quê realmente importa, se vale a pena. Estou tentando provar alguma coisa pra alguém? Estou querendo passar dos limites, só pra dizer que consigo? Começo a duvidar, de verdade. Olho pras últimas semanas, e talvez haja algo a se aprender com elas. Foi por pouco tempo, e foi por pouco que não me perdi ainda mais, mas não sei onde estive. Como cheguei a isso? Tenho pistas, mas a única certeza é que não foi uma coisa só. Foi como se tudo ao mesmo tempo agora resolvesse me colocar no liquidificador. Me reerguendo, é bom sentir que estou voltando. Meu quarto está um caos. Pelo menos cheira a flores. Preciso arrumá-lo. Acho que é um bom começo, junto com todo o resto que me esforço para fazer. As unhas! Mas eu preciso também tomar um sorvete, na lanchonete, e ver um monte de gente de perto. E pedir um monte de desculpas pras que eu importunei, e agradecer outro monte as que foram compreensivas. Bastante coisa, hein? Melhor começar logo. Mas baby steps. Baby steps, que não sou nenhuma Mulher Maravilha.

Posted: September 11, 2006 Comments (0)